O prazer desfocado que é poder estudar o meu livro favorito.

O prazer desfocado que é poder estudar o meu livro favorito.

Maria do Rosário Pedreira - Poesia Reunida

Maria do Rosário Pedreira - Poesia Reunida


“Literature is invention. Fiction is fiction. To call a story a true story is an insult to both art and truth. Every great writer is a great deceiver, but so is that arch-cheat Nature. Nature always deceives. From the simple deception of propagation to the prodigiously sophisticated illusion of protective colors in butterflies or birds, there is in Nature a marvelous system of spells and wiles. The writer of fiction only follows Nature’s lead.” —Vladimir Nabokov, Lectures on Literature

“Literature is invention. Fiction is fiction. To call a story a true story is an insult to both art and truth. Every great writer is a great deceiver, but so is that arch-cheat Nature. Nature always deceives. From the simple deception of propagation to the prodigiously sophisticated illusion of protective colors in butterflies or birds, there is in Nature a marvelous system of spells and wiles. The writer of fiction only follows Nature’s lead.” —Vladimir Nabokov, Lectures on Literature

(Source: juliettetang, via thegirlandherbooks)

Gonçalo M. Tavares - Uma viagem à Índia // ou Camões, depende do ponto de vista x)

Gonçalo M. Tavares - Uma viagem à Índia // ou Camões, depende do ponto de vista x)

Trecho 303 - Livro do Desassossego

O mundo é de quem não sente. A condição essencial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade. A qualidade principal na prática da vida é aquela qualidade que conduz à acção, isto é, a vontade. Ora há duas coisas que estorvam a acção - a sensibilidade e o pensamento analítico, que não é, afinal, mais que o pensamento com sensibilidade. Toda a acção é, por sua natureza, a projecção da personalidade sobre o mundo externo, e como o mundo externo é em grande e principal parte composto por entes humanos, segue que essa projecção da personalidade é essencialmente o atravessarmo-nos no caminho alheio, o estorvar, ferir e esmagar os outros, conforme o nosso modo de agir.

Para agir é, pois, preciso que nos não figuremos com facilidade as personalidades alheias, as suas dores e alegrias. Quem simpatiza pára. O homem de acção considera o mundo externo como composto exclusivamente de matéria inerte - ou inerte em si mesma, como uma pedra sobre que passa ou que afasta do caminho; ou inerte como um ente humano que, porque não lhe pôde resistir, tanto faz que fosse homem como pedra, pois, como à pedra, ou se afastou ou se passou por cima.

O exemplo máximo do homem prático, porque reúne a extrema concentração da acção com a sua extrema importância, é a do estratégico. Toda a vida é guerra, e a batalha é, pois, a síntese da vida. Ora o estratégico é um homem que joga com vidas como o jogador de xadrez com peças do jogo. Que seria do estratégico se pensasse que cada lance do seu jogo põe noite em mil lares e mágoa em três mil corações? Que seria do mundo se fôssemos humanos? Se o homem sentisse deveras, não haveria civilização. A arte serve de fuga para a sensibilidade que a acção teve que esquecer. A arte é a Gata Borralheira, que ficou em casa porque teve que ser.

Todo o homem de acção é essencialmente animado e optimista porque quem não sente é feliz. Conhece-se um homem de acção por nunca estar mal disposto. Quem trabalha embora esteja mal disposto é um subsidiário da acção; pode ser na vida, na grande generalidade da vida, um guarda-livros, como eu sou na particularidade dela. O que não pode ser é um regente de coisas ou de homens. À regência pertence a insensibilidade. Governa quem é alegre porque para ser triste é preciso sentir.

O patrão Vasques fez hoje um negócio em que arruinou um indivíduo doente e a família. Enquanto fez o negócio esqueceu por completo que esse indivíduo existia, excepto como parte contrária comercial. Feito o negócio, veio-lhe a sensibilidade. Só depois, é claro, pois, se viesse antes, o negócio nunca se faria. “Tenho pena do tipo”, disse-me ele. “Vai ficar na miséria.” Depois, acendendo o charuto, acrescentou: “Em todo o caso, se ele precisar qualquer coisa de mim” - entendendo-se qualquer esmola - “eu não esqueço que lhe devo um bom negócio e umas dezenas de contos.”

O patrão Vasques não é um bandido: é um homem de acção. O que perdeu o lance neste jogo pode, de facto, pois o patrão Vasques é um homem generoso, contar com a esmola dele no futuro.

Como o patrão Vasques são todos os homens de acção - chefes industriais e comerciais, políticos, homens de guerra, idealistas religiosos e sociais, grandes poetas e grandes artistas, mulheres formosas, crianças que fazem o que querem. Manda quem não sente. Vence quem pensa só o que precisa para vencer. O resto, que é a vaga humanidade geral, amorfa, sensível, imaginativa e frágil, e nao mais que o pano de fundo contra o qual se destacam estas figuras da cena até que a peça de fantoches acabe, o fundo-chato de quadrados sobre o qual se erguem as peças de xadrez até que as guarde o Grande Jogador que, iludindo a reportagem com uma dupla personalidade, joga, entretendo-se sempre contra si mesmo.

Bernardo Soares

<3

aseaofquotes:

— Orson Scott Card

<3

aseaofquotes:

— Orson Scott Card

(via passarinhorenascido-deactivated)

Morri.

atokniiro:

An introspective journey of artistic self discovery, presented as a 6 page comic.

(via jephjacques)

Sonhar de dia

Ouço frequentemente as pessoas contar-me que não conseguem dormir. Porque lhes custa, porque é difícil, porque padecem de uma doença qualquer que não sabem curar. Pergunto-me se não conseguem dormir pelos mesmos motivos que eu não consigo dormir. Ainda pergunto, mas ninguém sabe realmente explicar demasiadamente bem os motivos pelos quais não consegue dormir. Eu próprio não sou capaz de tirar do ar as palavras que expliquem a outra pessoa porque não consigo dormir. Era preciso estar dentro de mim e a capacidade de fazer isso com palavras é algo que se pratica e que ainda não sei fazer.

Mas, e é essa a surpresa e o dom de algumas pessoas, de algumas fadas, houve um passarinho que me disse por entre trinados uma interpretação do problema que me fez ver a questão de um ponto de vista que não conhecia. Explicou-me que antes tinha medo de dormir, porque como sonhava de dia, para a noite restavam-lhe os pesadelos. Agora dormia bem e queria dormir porque só sonhava ao dormir.

Quem sabe não tem ela razão e não consigo dormir de noite porque sonho todo o dia. Os pesadelos não querem nada comigo de noite também, andam pelos meus dias, saltitantes e réprobos de minhas noites. Os meus dias são assim, nunca os soube de outra maneira, cheios de pessoas por trás das pessoas, personagens que bebem delas e lhes recolhem os maneirismos para me depois surgirem em cenários diferentes. Cores por trás dos quadros pretos da universidade que fazem com que o branco que neles se inscreve seja difícil de perceber, tramas e outras coisas que não sei explicar em português a entretecer-se por entre cada olhar que se me dirige. Comovo-me diariamente mil vezes com problemas que não sou meus, mas que vivo como se fossem porque invento logo uma pessoa que não existe e que os vai sofrer da mesma maneira mas num mundo que é só meu. E sonho, e sonho, constantemente, com quem não está cá mas devia estar. E só estou acordado quando estou a transformar os meus sonhos em pessoas de papel, como lhes chamava o Eça, quando estou a ver um futuro para mim que não passa pela minha pessoa e quando estou a imaginar diferente. E custa sempre ouvir falar de males de coração, porque sonho males de coração todos os dias e pinto-os de todas as formas possíveis, porque é um tema mais antigo do que todos os outros, e os poetas andam a inventar novas formas de os cantar desde que há memória de pena em cima de papel, sem nunca serem capazes de os mostrar a outra pessoa tão completos como aqueles que andam de volta de nós todos os dias quando nos deixamos acordar. Os males de coração são o nosso sonho e o nosso acordar, são as nossas notícias e a nossa vida inteira, são uma dor boa de saudade de que precisamos para nos reinventar, porque antes do renascer precisamos do caos.

Mesmo enquanto estou aqui sentado, pronto para enviar estas palavras para quem mas quiser ler, metade delas é verdade, porque sou eu que as estou a inventar e não posso inventar nada que não esteja dentro de mim, a outra metade é sonhada mas é minha na mesma. Será que é por isso que não durmo de noite? Porque sonho de dia?

Isso seria um aborrecimento… Porque não quero deixar de o fazer.

O choro preventivo benfiquista

Um dia vou fazer uma entrada para a Wikipedia com aquilo a que chamo “choro preventivo benfiquista”.

O choro preventivo comporta sempre três características, sendo que cada uma delas tem uma função específica e definida que passo a explicitar:

a) Assumir imediato que a derrota é uma possibilidade, sem nunca deixar qualquer indício, no entanto, de que ela poderá ser justa. O Benfica, recorde-se, nunca perde com justiça em nenhuma circunstância. Isto cumpre o propósito de, caso o jogo corra mal, se utilizar o “choro de derrota benfiquista” (a ser explorado mais tarde) que consiste em chavões como o “taba-se mesmo a ver” e o “eu bi logo”, que mascara a dor da derrota com a satisfação de ter previsto a situação sem nunca admitir qualquer falha ou deficiência por parte da equipa ou do clube. Em caso de vitória, permite a possibilidade de glorificar a equipa, que em caso de vitória já pode ser responsabilizada com chavões como “CONTRA TUDO E CONTRA TODOS FONHA-SE”.

b) Ataque ao Futebol Clube do Porto, mesmo na sua ausência do jogo. Uma não referência ao FCPorto significaria que a assunção de que o árbitro está a prejudicar o Benfica “só porque sim”, coisa que embora os benfiquistas no fundo sintam não querem admitir, porque é menos realista do que o ataque constante ao bode expiatório. Ao concentrarem as culpas num qualquer “sistema” e na figura coletiva do FCPorto as derrotas são facilmente digeríveis sem assumir, novamente, quaisquer falhas ou deficiências do plantel, equipa ou clube. Porque, recordemos, o Benfica nunca perde com hombridade, apenas perde quando prejudicado. Em caso de vitória, no entanto, a responsabilidade será inteiramente do clube dos brilhantes jogadores.

c) Ataque à figura do árbitro, que é sempre mencionado pelo nome. É mencionado pelo nome, porque isso permite de imediato vilificar a sua figura e responsabilizá-la diretamente. O nome não é importante, atenção, qualquer um dos árbitros da liga seria passível de ocupar este espaço, mas se não for utilizado o nome não é possível fazer-se a desumanização do colegiado e retirar a possibilidade de ele se enganar em desfavor do Benfica de cima da mesa. Note-se aqui que QUALQUER (literalmente) instância em que o Benfica seja beneficiado, seja por foras de jogo, penaltis ou qualquer outra circunstância deve ser liminarmente ignorada e tratada como algo fictício e imaginado pelas câmaras da SportTv, instrumento do “sistema”.

Note-se portanto que ao fazer um choro preventivo, o benfiquista imediatamente se protege de qualquer tipo de resultado negativo na contenda. Caso o Benfica seja derrotado, os alvos já estão identificados e as responsabilidades atribuídas. A derrota, mesmo que aconteça, nunca poderá ser moral. Será sempre fruto de corrupção e obra de forças adversas ao clube. Nunca poderá vir quer por demérito da equipa quer por mérito do adversário. Que nunca é mencionado (apenas o estádio), enquanto que o FCPorto o é duas vezes.

Mais, caso o Benfica vença, a vitória é revestida de um valor superior, porque não se jogava contra o Nacional, mas contra o árbitro e ainda a força invisível do FCPorto, que consome completamente o imaginário benfiquista.

É um instrumento brilhante.

"Well-run libraries are filled with people because what a good library offers cannot be easily found elsewhere: an indoor public space in which you do not have to buy anything in order to stay. In the modern state there are very few sites where this is possible. The only others that come readily to my mind require belief in an omnipotent creator as a condition for membership. It would seem the most obvious thing in the world to say that the reason why the market is not an efficient solution to libraries is because the market has no use for a library. But it seems we need, right now, to keep re-stating the obvious. There aren’t many institutions left that fit so precisely Keynes’ definition of things that no one else but the state is willing to take on. Nor can the experience of library life be recreated online. It’s not just a matter of free books. A library is a different kind of social reality (of the three dimensional kind), which by its very existence teaches a system of values beyond the fiscal."

— Zadie Smith, in the New York Review of Books. (via thebronzemedal)

(via bookshelfporn)