timecrossedlovers:

Doctor Who Reading is Sexy 

E não quero saber que seja do dr. Who.

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E não quero saber que seja do dr. Who.

(via reading-is-fun)

Poesia

O prof. Sérgio, o semestre passado, em Literatura Portuguesa 1, enquanto falávamos das cantigas medievais, relembrando que elas tinham sido escritas à época para serem cantadas, dizia que hoje em dia algo de semelhante acontecia.

Filosofava sobre a morte da poesia como algo de independente, citando vários argumentos muito pertinentes, como a ausência assustadora de poesia de qualidade e contemporânea nas prateleiras das livrarias e a inexistência de poetas contemporâneos relevantes (exceto quando, volta e meia, um qualquer escritor célebre pelas suas explorações dentro de outro género se lembra de fazer poesia).

Hoje em dia, dizia o prof. Sérgio, o grande reduto da poesia é a música. É na música que está o baluarte da poesia dos dias de hoje, já não na página. Agora como na época medieval. E é por isso que eu, que sou tão cínico em relação à música portuguesa, apreciador de tão pouca da nossa produção nacional, fico verdadeiramente contente quando aparece alguém, dentro deste refúgio da poesia (de qualidade) que é a música (de qualidade), a fazer poemas que realmente valem a pena… Estes dois, dentro da sua simplicidade, são profundamente brilhantes.

É preciso realmente dizer que cada vez sou mais apreciador do Miguel Araújo Jorge (que também é autor desta letra d’Os Azeitonas) não só como músico, mas muito especialmente como poeta. Acho que ele consegue encontrar dentro da enorme simplicidade do que faz uma subtileza que é muito difícil de achar. Sempre achei que fosse mais difícil fazer impressionante fazendo simples do que fazendo complicado.

Eu quero a sorte de um cartoon
Nas manhãs da RTP1
És o meu Tom Sawyer
E o meu Huckleberry Finn
E vens de mascarilha e espadachim
Lá em cima, onde há planetas sem fim
Tu és o meu super-herói
Sem tirar o chapéu de Cowboy
Com o teu galeão e uma garrafa de rum
Eu era tua e de mais nenhum
Um por todos e todos por um

Nos desenhos animados
Eu já conheço o fim
O bem abre caminho
A golpes de espadachim
E o príncipe encantado
Volta semrpe para mim

Eu sou a Jane e tu Tarzan
A Julieta do meu Dartagnan
Se o teu cavalo falasse
Tinha tanto para contar
Há fantasmas debaixo dos meus lençois
Dos tesouros que escondemos dos espanhóis

Nos desenhos animados
Eu já conheço o fim
O bem abre caminho
A golpes de espadachim
E o príncipe encantado
Volta semrpe para mim

Quando chegar o final
Já podemos mudar de canal
Nos desenhos animados
É raro chover
E nunca, quase nunca acaba mal.
BY THE POWER OF GREYSKULL.

Miguel Araújo Jorge

Toda a gente sabe que os homens são brutos
Que deixam camas por fazer
E coisas por dizer.

São muito pouco astutos, muito pouco astutos.
Toda a gente sabe que os homens são brutos.

Toda a gente sabe que os homens são feios
Deixam conversas por acabar
E roupa por apanhar.

E vêm com rodeios, vêm com rodeios.
Toda a gente sabe que os homens são feios.

Mas os maridos das outras não
Porque os maridos das outras são
O arquétipo da perfeição
O pináculo da criação.

Dóceis criaturas, de outra espécie qualquer
Que servem para fazer felizes as amigas da mulher.
E tudo os que os homens não…
Tudo que os homens não…
Tudo que os homens não…

Os maridos das outras são
Os maridos das outras são.

Toda a gente sabe que os homens são lixo
Gostam de música que ninguém gosta
Nunca deixam a mesa posta.

A baixo de lixo, a baixo de lixo.
Toda a gente sabe que os homens são lixo.

Toda a gente sabe que os homens são animais
Que cheiram muito a vinho
E nunca sabem o caminho.

Na na na na na na, na na na na na.
Toda a gente sabe que os homens são animais.

Mas os maridos das outras não
Porque os maridos das outras são
O arquétipo da perfeição
O pináculo da criação.

Amáveis criaturas, de outra espécie qualquer
Que servem para fazer felizes as amigas da mulher.
E tudo os que os homens não…
Tudo que os homens não…
Tudo que os homens não…

Os maridos das outras são…
Os maridos das outras são…
Os maridos das outras são…
Os maridos das outras são.

Miguel Araújo Jorge

Sonhar

Há muito mais em mim que eu não sei.

Há em mim todo um mundo, de todas as coisas, que eu sei que lá está mas ao qual não consigo chegar, porque as minhas ávidas e invejosas mãozinhas não conseguem romper a pele que reveste o meu interior, este saco de ossos e sangue e coisas feias que para aqui não são chamadas.

Todo um mundo de coisas que não são feias nem feitas de carbono e outras matérias que também não interessam para esta peça. Todo um mundo de coisas feitas do material de que são feitos os sonhos mas que eu, por ironia do destino, não consigo pôr cá para fora. Gostava de poder abanar a cabeça, como faço quando saio da piscina, e fazer gotejar cá para fora um bocadinho do que quer que seja que eu tenho cá dentro e que não sei, não sei explicar.

Porque quando uma pessoa fala de dor e de coração partido, isso não passam de palavras, não passa de tinta num papel ou menos, luzinhas acesas num qualquer monitor, ainda mais solitário e lúgubre do que o meu. Quando falo de alegria e satisfação, não passam de ideias, de sensações minhas, que me esforço por revestir de pormenor e alegoria para poder esculpir, aperfeiçoar e pôr cá fora, nem que seja para que deixe de ocupar espaço lá dentro, mas não consigo, não consigo.

Olho para os frutos de qualquer tentativa e são tão pobres, tão falíveis, tão finitos e estéreis. Parece que são mesmo feitos de letras, feitos de física. E isso é horrível. É horrível porque os sonhos não são feitos de física, são feitos de outra coisa qualquer e eu quero muito, muito, muito que essa coisa venha cá para fora, porque eu não aguento mais tê-la cá dentro.

Porque ela está sempre cá dentro e ela ocupa espaço. Ocupa muito espaço. E eu já não sei mais o que lhe hei de fazer, porque já nem de noite o consigo sonhar.

Já nem de noite a consigo sonhar… 

Fazer de conta

Vamos fazer de conta que não estamos apaixonados.

Fazer de conta que nunca nos vimos, que não sabemos quem somos.

Vamos fazer de conta que somos amigos.

Que podemos ser amigos.

Deixa cair um lenço quando passares por mim na rua, assim daquela forma desengraçada que tu tão bem sabes, discreta o suficiente para parecer que foi sem querer, mas descarada o suficiente para que ambos saibamos que foi de propósito.

Deixa cair o lenço e vamo-nos baixar os dois para o apanhar, como nos filmes, como em Hollywood, onde tudo acaba bem. E quando eu te tocar no dedo, daquela forma trapalhona, que é a única que eu sei, vai ser escandalosamente óbvio que o fiz de propósito, mas tu tens que simular surpresa. E tens que levantar os olhos nem demasiado depressa nem demasiado devagar, para não estragares a magia.

E vamo-nos apaixonar outra vez, do começo, desta vez sem percalços nem sobressaltos, como se fosse a primeira, para que desta vez possa ser perfeita.

Não podes deixar cair o lenço? Não é assim que funciona? Há outras coisas? Outras pessoas? Outras vidas? Outras memórias? Outras sombras?

Então deixa cair outra coisa qualquer… Já ninguém usa lenços de qualquer forma.

O Camões é um incompleto!

Amor é fogo que arde sem se ver, já dizia o poeta, é ferida que dói e não se sente. É bonito. É lindo, aliás, é imortal. Mas é incompleto, porque nos leva a cair no erro de pensar que é verdade.
Note-se que não vou estar aqui a contradizer Camões, isso seria profundamente presunçoso da minha parte e, a ser presunçoso, prefiro ser só um bocadinho. Vou portanto dizer que o belíssimo poema está correto mas apenas em parte. Porque é perfeitamente possível que tão contrário a si seja o mesmo amor, perfeitamente plausível que sirva a quem vence o vencedor e solitário andar por entre a gente? Isso é o pão nosso de cada dia.

Mas e quando o fogo arde à vista de todos?
Quando se sente a dor da ferida?
Quando o descontentamento toma conta?
Quando a dor desatina de tanto doer?

Aí que se faz?

Quando é um não querer completo?
Quando se anda solitária na presença ou na ausência da gente?
Quando não há contentamento possível?
E quando sabemos que já nos perdemos?

Aí que se faz?

Quando já a nossa lealdade chega a ser anedótica de tão abusada e quando estamos presos sem vontade a fumo e miragens, coisas que não existem, coisas que se esvaem quais sombras ao menor roçagar do vento?

Se calhar é preciso procurar pela resposta noutros poemas…

E não me venham sequer falar da contrariedade do amor, porque há alturas em que a única contrariedade é acreditar que o reverso da medalha pode existir. 

"Writers - all writers - need to belong. Only for real writers, unfortunately, their club is a club with just one member."

— Richard Ford, The Sportswriter (via thisispartofthewhole)

Revolta no Facebook

Comecei a mandar vir com o Taipas no Facebook do Manjerico por um motivo completamente aleatório. Achei que o resultado ficou giro e decidi adaptar o texto para pôr aqui. Imagino-o na voz de uma personagem, é provável que volte a alterá-lo e que o utilize. Entretanto, espero que quem quer que seja que lê isto goste.

 Eu sou o João Luís Leal Zamith de Passos, Soulfly para alguns, jaymz para outros, Zamith para todos. Venho por este meio afirmar a minha repulsa pela herege noção de que as opiniões não se discutem. É falso. É falso e hei de ir para o meu leito mortal a gritá-lo aos sete ventos e a quem me quiser ouvir. Não só as opiniões se discutem, meus irmãos, como vou mais longe. Vou mais longe se mo permitirem e se a musa der asas à minha pena (ou aos meus dedos no teclado, but you get the point)! As opiniões são a ÚNICA coisa que se discute! O que não se discute são os factos. Esses sim são incontestáveis e valem por si próprios. A única coisa que resta portanto para discutir são as opiniões. E eu hei de discuti-las. Oh sim, hei de discuti-las até que a voz (ou as pontas dos dedos) me doa. Porque existem efetivamente neste mundo tais coisas como bem e mal, como certo e errado. Porque não há circunstâncias que valham para exonerar alguns atos, para justificar outros. Querem discutir isso comigo? Venham, com prazer os receberei e com uma boa dose de verdade e humilhação deles me despedirei. E bolachas. Bolachas também se vierem com fome. E caso alguns deles ficarem na dúvida se estou a brincar ou a falar a sério, caso não estejam certos se hão de ficar ofendidos com as minhas palavras ou com a minha intolerância para com aquilo que julgam ser mais sacrossanto e inviolável, mais puro, casto e pleno de qualidades, o templo da “opinião”, que aparentemente não se pode discutir, então deixem-me descansar vossas mentes e vossas almas, vossos corações, aortas e partes pudendas. Eu falo sempre a sério! Sempre! Nunca uma palavra fará da minha boca seu recetáculo sem estar imbuída da mais pura verdade, do mais profundo sentimento e da mais reta seriedade. Porque se vamos discutir aquilo que é mais intocável para alguns, mas mais profano para mim, então precisamos de ser justos, hirtos e firmes que nem uma barra de ferro. Mas para isso aqui estamos, irmãos, para isso aqui estamos, prontos para enfrentar a besta olhos nos olhos, para a agarrar pelos cornos e para a vergastar veementemente com os nossos bastões. Sim, com os nossos bastões, porque temos dois e cada um deles mais belo, mais luminoso e mais ígneo do que o outro. São eles a verdade e a justiça, e com eles combateremos aquilo que outros julgam ser impossível de combater. Aquilo que é o refúgio dos fracos, débeis e incapazes de esgrimir palavras contra a nossa retidão de caráter. A opinião. Porque se ela vos é assim tão cara então defendei-a. Defendei-a com força, com imaginação e com argumentos que me façam ver-vos a uma nova luz. E, meus irmãos, não tenham sequer sombra de dúvida nos vossos corações. Venceremos. Venceremos porque não fechamos a nossa alma a nada. Não aceitamos dogmas, não aceitamos verdades feitas. Eu só sei que nada sei. Tudo é discutível. Tudo é atacável. Tudo é debatível. Tudo é derrubável. Só contra factos é que não há argumentos.

Ch. XIII

O toque é subvalorizado. Um toque derruba as cinco paredes. Às vezes é só do que precisamos, de um toque. Quando estamos no fundo dos nossos poços, buracos, prisões, seja o que for, normalmente a única coisa de que precisamos é de um toque. Do toque certo, da forma correcta. Não pode ser qualquer toque. Há quem precise de levar uma tareia, há quem precise de uma festinha, como qualquer cachorrinho poderá confirmar. Se calhar se ela não o tivesse tocado naquele dia talvez nunca tivesse saído de onde quer que fosse que estava. Seria a sua nova casa, um sítio onde poderia ouvir os seus próprios demónios a envenenar-lhe os pensamentos vinte e quatro horas por dia até fazer algo de estúpido apenas para os calar. Porque era só do que ele precisava. Precisava de alguém que os calasse. Para poder ouvir-se a si próprio de novo. Porque ele ainda lá estava. Podia não se ter apercebido disso, podia-se haver esquecido disso por qualquer motivo, o tempo lá passava muito devagar, mas ele ainda lá estava. 

Ch. XIII

É curioso, no entanto, como o facto de nos encontrarmos deprimidos nos pode forçar a encontrar coisas boas em sítios que em condições normais provavelmente votaríamos á ignorância.

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Ch. XII

 Quando admitimos para nós próprios que temos um problema, esse problema torna-se real. Mas só quando admitimos o problema a nós próprios. Até que o admitamos ele não é real para nós. É real, que não haja qualquer tipo de ilusão nesse sentido, perfeitamente real. Mas para nós não. Para nós é apenas uma pequena voz na parte de trás da nossa cabeça que não conseguimos calar mas também não conseguimos deixar de ouvir. Quando admitimos a nós próprios que algo se passa, aí sim é impossível continuar a fugir.

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